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Sujeitos em crise, discursos de ordem: masculinismo na contemporaneidade

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    PET Economia UFES
  • há 3 horas
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MOR, Claudio. [Charge sobre o movimento redpill]. Folha de S.Paulo, São Paulo, 27 mar. 2026. Disponível em: https://www.folha.uol.com.br/. Acesso em: 29 maio 2026.
MOR, Claudio. [Charge sobre o movimento redpill]. Folha de S.Paulo, São Paulo, 27 mar. 2026. Disponível em: https://www.folha.uol.com.br/. Acesso em: 29 maio 2026.

A minissérie Adolescência, lançada pela Netflix em março de 2025, tornou-se uma das produções audiovisuais mais importantes para pensar o avanço dos movimentos masculinistas no capitalismo contemporâneo e sua relação imbricada com os processos de conformação da subjetividade da juventude em meio à crise do capital. Criada por Stephen Graham e Jack Thorne, com direção de Philip Barantini, a produção tem como personagem principal Jamie Miller, um adolescente de 13 anos acusado de assassinar uma colega de escola.[1] No decorrer da investigação que busca compreender os motivos do crime brutal, a obra evidencia como fóruns online, influenciadores digitais e comunidades masculinistas oferecem aos sujeitos narrativas que justificam suas frustrações afetivas e inseguranças. Nesse processo, o sofrimento psíquico histórica e socialmente forjado pelo desenvolvimento capitalista é convertido em ressentimento e ódio direcionados às mulheres, aos movimentos feministas e às pautas emancipatórias. Para compreender os movimentos masculinistas, deve-se, primeiro, pensar em que consiste a masculinidade no capitalismo. “Ser homem” corresponde, fundamentalmente, a  uma construção histórica e social produzida no interior das relações de produção e de reprodução social sob a égide do capital. Nesse contexto, a Teoria da Reprodução Social (TRS) oferece aportes teóricos relevantes para compreender como a masculinidade é produzida e reproduzida histórica e socialmente.[2] Teóricas da TRS, como Cinzia Arruzza, Tithi Bhattacharya e Nancy Fraser, pensam a totalidade do processo de acumulação de capital por meio da relação contraditória entre produção e reprodução social. A dinâmica capitalista depende não só da dimensão da produção de mercadorias, mas também da dimensão da reprodução social, associada ao conjunto de atividades que garantem as condições de manutenção e de reprodução da vida humana no capitalismo, como as de cuidado, de educação, de socialização, de trabalho doméstico, de alimentação. Historicamente, há uma clivagem aparente entre produção e reprodução social, em que o trabalho produtivo, remunerado e masculinizado é valorizado em detrimento do trabalho reprodutivo, pouco ou não remunerado e feminilizado.[3]

A construção da masculinidade emerge dessa totalidade contraditória constituída no bojo das relações sociais capitalistas. Como argumenta Engels, a opressão contra as mulheres acompanha historicamente o surgimento das sociedades de classe, sendo a dominação masculina pilar fundamental das relações sociais no capitalismo.[4] Com isso, a própria conformação capitalista das relações sociais produz e reforça padrões de gênero específicos, nos quais a masculinidade associa-se à racionalidade, à autoridade, à produtividade e ao domínio, ao passo que a feminilidade associa-se ao cuidado, à dependência e à subordinação. De maneira complementar à construção da masculinidade, as identidades femininas são constituídas como sujeitos apropriáveis, instrumentalizáveis, objetificáveis e, no limite, matáveis. A masculinidade passa, então, a ser definida pela negação do feminino e pela necessidade constante de demonstrar virilidade. Ela emerge como forma social funcional à reprodução das assimetrias de gênero necessárias à dinâmica de acumulação de capital. No limite, cristaliza-se um processo de desumanização em que se criam as condições de naturalização das múltiplas formas de violência às quais são submetidas as identidades femininas.

Os movimentos masculinistas possuem uma genealogia ligada às transformações políticas e culturais das décadas de 1960 e 1970, quando a segunda onda feminista passou a sistematicamente questionar as hierarquias de gênero.[5] Nesse contexto, surgiram grupos de homens vinculados ao movimento de libertação masculina, que defendia que os papéis de gênero também produziam efeitos negativos sobre os homens. Posteriormente, parte desse campo assumiu um caráter reativo às conquistas feministas, dando origem a diferentes vertentes masculinistas, unificadas pela percepção de que os homens viveriam oprimidos pelas transformaçõesnas relações de gênero. A expansão recente desses movimentos está profundamente associada à internet. Narrativas antes articuladas em fóruns anônimos difundiram-se no YouTube, Instagram, TikTok e Spotify, onde circulam em formatos mais palatáveis, frequentemente associados à autoajuda e ao aconselhamento afetivo. Ao privilegiar conteúdos de alto engajamento, essas plataformas ampliam a circulação desses discursos e lucram com as inseguranças e os ressentimentos que os sustentam.

Nas plataformas digitais, os influenciadores redpill,[6] como Thiago Schutz e Rafael Aires, são coaches de uma legião de homens, os quais acreditam que podem ser “reprogramados” em diversas dimensões da vida, sobretudo nas relações afetivas e profissionais, a fim de que alcancem a performance social e econômica almejada. No processo de coaching, as experiências pessoais parecem conferir a esses influenciadores credencial suficiente para aconselhar outros indivíduos, embora não tenham formação profissional reconhecida.[7] Em certa medida, a difusão dos movimentos masculinistas por meio da gramática da autoajuda está articulada à racionalidade neoliberal que permeia as relações sociais no capitalismo contemporâneo. Dardot e Laval teorizam que a lógica concorrencial, na fase neoliberal do capital, atravessa todas as dimensões da vida social.[8] Nessa fase, o achatamento das condições de existência humana é cooptado pelos códigos discursivos da autoajuda, lançando à sorte individual a responsabilidade de sucesso, sob a ilusão meritocrática. Assim, os movimentos masculinistas constituem um instrumento de aprofundamento da internalização da lógica concorrencial nas relações sociais e afetivas, na medida em que mercantilizam inseguranças masculinas, ao transformá-las em nichos de consumo, aconselhamento e mentorias voltadas à construção do “homem de alta performance”.

Para além da produção de subjetividades masculinas, a cartilha masculinista também prescreve, como seu correlato necessário, um modelo normativo de feminilidade. No universo redpill, a mulher ideal é figurada como dócil, voltada ao lar e subserviente à figura masculina, sob uma normatividade racial implícita que associa esses atributos à branquitude, produzindo a exclusão de mulheres negras, indígenas e periféricas da própria definição de feminilidade desejável. Sob o verniz de uma retórica biologizante que naturaliza hierarquias de gênero, raça e classe, esses arranjos convertem normas socialmente construídas em descrições supostamente objetivas da realidade, apresentando desigualdades e opressões como expressão de uma ordem natural das relações sociais. À luz disso, Veronica Gago observa que a agressividade da contraofensiva neoconservadora às lutas feministas se mede pela própria ameaça feminista à ordem vigente, da qual o projeto masculinista extrai sua energia política, visando manter as condições de invisibilização e a exploração do trabalho reprodutivo sobre o qual repousa a acumulação capitalista.[9]

Nesse sentido, a ascensão dos movimentos masculinistas inscreve-se diretamente nas contradições produzidas pela crise das condições de reprodução da vida no capitalismo contemporâneo. À medida que o capital intensifica a precarização do trabalho, reduz o investimento em serviços de cuidado e transfere para os indivíduos e famílias os custos da manutenção da vida, as condições de reprodução social se deterioram de forma generalizada, produzindo insegurança material, sofrimento psíquico e enfraquecimento dos vínculos coletivos. Essa deterioração articula-se ao esgotamento de formas socialmente construídas do que representa “ser homem” no capitalismo: já não se sustenta o modelo do provedor e estabilizador masculino. Os movimentos masculinistas intervêm ideologicamente nesse processo, convertendo contradições estruturais das condições de reprodução da vida em narrativas de ressentimento direcionadas às mulheres e ao feminismo, ao mesmo tempo em que mobilizam a reafirmação da autoridade masculina como resposta às tensões produzidas pela própria dinâmica de acumulação capitalista.

Embora seus discursos estejam assentados em uma suposta supremacia feminina, os dados estatísticos mostram que as mulheres permanecem sendo brutalmente violentadas: somente no primeiro trimestre de 2026, o Brasil registrou 399 feminicídios, o período mais letal da série histórica.[10] Nesse contexto, a retórica masculinista revela seu caráter mistificador: longe de expressar uma reação à opressão dos homens, contribui para encobrir as condições concretas de subordinação das mulheres e para reafirmar uma ordem social que segue sustentando o sufocamento sistemático das existências femininas, na medida em que desloca tensões social e historicamente constituídas para o plano individual.  Torna-se, portanto, necessário recolocar tais contradições em um horizonte coletivo de transformação social, orientado pela centralidade da reprodução da vida, e não pelas exigências da acumulação de capital. A emancipação feminina, nesse contexto, atravessa necessariamente a superação da contradição entre capital e trabalho, na medida em que as relações patriarcais estão acopladas às condições de reprodução do próprio modo de produção capitalista.


Gabriela Morozini

Isadora Freire Camargo


  1. ADOLESCÊNCIA. Direção: Philip Barantini. Produção: Netflix. Reino Unido: Netflix, 2025. Série (1 temporada). Disponível em: https://www.netflix.com. Acesso em: 27 maio 2026.


  2. GOMES, Pedro Alves. Masculinidades e marxismo: aportes da Teoria da Reprodução Social. In: 10º Encontro Internacional de Política Social; 17º Encontro Nacional de Política Social, Vitória, 2024. Anais [...]. Vitória: UFES, 2024. 


  3. ARRUZZA, Cinzia; BHATTACHARYA, Tithi; FRASER, Nancy. Feminismo para os 99%: um manifesto. São Paulo: Boitempo, 2019. 


  4. ENGELS, Friedrich. A Origem da Família, da Propriedade Privada e do Estado. 3. ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1977.


  5.  GIMENES, Giovana dos Santos. Masculinismo e autoajuda: uma análise do fenômeno dos coaches redpills no Brasil. Rio de Janeiro: UFRJ, 2024. Disponível em: https://pantheon.ufrj.br/handle/11422/26858. Acesso em: 28 maio 2026. 


  6. Redpill é uma vertente masculinista que se apropria da metáfora do “despertar” presente no filme Matrix (1999) para reivindicar acesso a uma suposta verdade oculta sobre as relações sociais.


  7. GIMENES, op. cit.


  8. DARDOT, Pierre; LAVAL, Christian. A nova razão do mundo: ensaio sobre a sociedade neoliberal. São Paulo: Boitempo, 2016.


  9. GAGO, Verónica. A potência feminista, ou o desejo de transformar tudo. Tradução de Igor Peres. São Paulo: Elefante, 2020.


  10. SILVESTRE, Yasmin; COELHO, Thomaz. Brasil tem 1º trimestre mais letal da história para mulheres em 2026. CNN Brasil, São Paulo, 5 maio 2026. Disponível em: https://www.cnnbrasil.com.br/nacional/brasil/brasil-tem-1-trimestre-mais-letal-da-historia-para-mulheres-em-2026/. Acesso em: 10 jun. 2026.

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