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A Democracia em Xeque: 10 anos de golpe

  • Foto do escritor: PET Economia UFES
    PET Economia UFES
  • 1 de mai.
  • 7 min de leitura

BRASIL-PAIS . Na Praça dos 3 Poderes, manifestantes escreveram “PERDEU, MANÉ” na Estátua da Justiça. Instagram, @brasiloficiial, 08 jan. 2026. Disponível em: https://www.instagram.com/p/CnK8tqIPXmM/?igsh=aDVlYXgwaDBwY3Rr. Acesso em: 21 abr. 2026.


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No âmbito fiscal, desde 2011, e com intensificação entre 2013 e outubro de 2014 — sendo interrompidas pouco antes do período eleitoral —, o governo Dilma, buscando melhorar o resultado fiscal primário em certos períodos, adotou as chamadas “pedaladas fiscais”. Tais práticas consistem no atraso intencional da transferência de recursos do Tesouro Nacional para instituições financeiras estatais e autarquias, originalmente destinados ao pagamento de obrigações e benefícios sociais, maquiando o balanço das contas públicas e melhorando o resultado fiscal primário[1]. Em termos econômicos, sob a ótica da renda, os indicadores do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) para 2014[2] revelaram um crescimento de 0,5% no Produto Interno Bruto (PIB) em relação ao ano anterior. Contudo, o PIB per capita sofreu uma retração de 0,4%, a terceira maior desde o início do século[3] até aquele ano. Pelo lado da despesa, o crescimento do consumo das famílias desacelerou, avançando 2,3% em comparação com 2013.


O problema não era apenas algo técnico — as pedaladas —, mas o início de uma falência no diálogo. Enquanto os números do PIB caiam, o debate político se “esvaziava”[4] de propósitos reais, tornando-se um grande espetáculo midiático com enfoque na destruição do adversário. A exposição midiática da Operação Lava Jato iniciada em 2013 concentrou a culpa pela corrupção e desestabilização socioeconômica no Partido dos Trabalhadores (PT) — partido de centro-esquerda — minimizando a participação de membros de outros partidos políticos, como o próprio Movimento Democrático Brasileiro (MDB) — partido do “centrão” do vice-presidente Michel Temer e do deputado federal Eduardo Cunha, aliados do PT —, impulsionando um movimento de oposição antipetista, cujo no ápice da crise governamental ocorreram “As Jornadas de Junho de 2013”[5].


Já sob a pressão da crise econômica evidenciada pela recessão cuja corrosão do poder de compra familiar servia como catalisador para o paroxismo institucional[6] dos anos subsequentes, o governo federal passou a enfrentar no ano de 2015 uma queda global no preço das commodities. Paralelamente, intensificava-se o conflito político com o Poder Legislativo, visando o cumprimento de obrigações fiscais. Esse quadro se acentuou após a posse de Eduardo Cunha na presidência da Câmara dos Deputados em 2015, colocando o Executivo em posição de vulnerabilidade.


Conforme escrito pelo jornalista Gaudêncio Torquato: “A polarização contemporânea assume a forma de uma guerra simbólica, em que os adversários não buscam se vencer por meio de ideias, argumentos ou propostas, mas sim por meio de rótulos e estigmas”[7]. O historiador Peter Burke, ao fazer uma análise histórica da ignorância[8] como fenômeno socialmente construído[9], argumenta que, na política, existe uma relação entre o poder daqueles que governam e a ignorância dos cidadãos na sua participação política. A ignorância na política pode se transformar em um instrumento de desestabilização: “Em todo caso, uma grande parte da atividade política ocorre sempre nos bastidores. Mesmo os cidadãos mais bem informados estão cientes de apenas uma pequena proporção do que está acontecendo” (Burke, 2023). Sob nossa interpretação conjuntural, os desdobramentos do crescente movimento das massas em 2013 se transformaram em massa de manobra pelas mãos dos governantes em meio à profunda ruptura na unidade nacional, caracterizada pela intensa polarização política, crises econômicas e protestos sociais. O enfraquecimento da esquerda proporcionou o fortalecimento da direita na expansão de sua influência na esfera política.


Não é à toa que o questionamento do resultado eleitoral de 2014 por Aécio Neves (PSDB), após ser derrotado no segundo turno por 48,36% dos votos válidos contra 51,64% de Dilma Rousseff, fragilizou ainda mais o jogo democrático. Este contexto, somado à queda de popularidade da presidenta Dilma, consolidou o movimento antipetista. Inicialmente articulado nas redes sociais, o sentimento anticorrupção associado ao PT e, consequentemente, à esquerda, evoluiu para um discurso pró-impeachment, culminando em manifestações massivas e slogans como o "Fora Dilma", paralisando o segundo mandato da presidenta em 2016 e colocando-a sob intensa pressão diante de uma das maiores mobilizações populares da história brasileira, com milhões de apoiadores demandando sua destituição: “Nenhuma sociedade livre pode se sustentar, a menos que tenha uma cidadania educada, cujas qualidades de mente e coração lhe permitam participar das decisões complexas e cada vez mais sofisticadas que recaem não apenas sobre o Presidente e o Congresso, mas sobre todos os cidadãos que exercem o poder supremo” (Kennedy, 1963).


Meses antes da destituição da presidenta em agosto de 2016 durante o processo de impeachment o MDB rompe aliança com o PT retirando dos ministérios seus representantes

políticos[10] —, o eleitor não enxergou o esvaziamento do pensamento crítico do impeachment pelas mídias ser usado pelo MDB e aliados de forma casuística na conjuntura do momento como cortina para ascensão ao protagonismo político através de ações, cuja legitimidade dos motivos do processo e sua execução ainda são debatidas, mesmo após uma década do golpe parlamentar de 2016.


Apesar da troca de presidente, o cenário econômico persistiu. Cunha, alvo da Lava Jato por propinas da Petrobras (incluindo navios-sonda) e contas secretas na Suíça, teve seu mandato

de presidente da Câmara cassado dois meses depois, no mesmo ano. Em maio de 2017, um áudio revelou Temer e Joesley Batista[11] negociando mesada para manter o silêncio de Cunha na Lava Jato. No auge de sua popularidade e influência nas redes sociais, Jair Bolsonaro, pregando uma postura antissistema e se aproximando de um eleitorado desiludido com a política após o impeachment e o áudio, venceu como outsider anticorrupção a eleição presidencial de 2018 pelo PSL, com 55,13% dos votos válidos no segundo turno contra Fernando Haddad (PT), sendo o único candidato na história das eleições a triunfar e o primeiro a não comparecer a um debate no segundo turno de uma eleição presidencial[12].


No final de 2022, o desgoverno de Bolsonaro (que não era coveiro) se encerrou marcado por um presidente negacionista à ciência, principalmente à vacina e à Covid 19 — “gripezinha”[13] na qual matou 693 mil pessoas, envolvendo-se em acordos corruptos, resultando na CPI da Covid que expôs esquemas de tratamento precoce sem base científica, negligências na compra de vacinas e não intervir através de repasse de verbas para estados e municípios no combate à pandemia[14] —. Apresentando um resultado de crescimento do PIB em 3,0% (equivalente a R$10,1 trilhões) no final de 2022, resultado superavitário esse fruto de calotes[15] no qual de maneira hipócrita como os “governos corruptos” antecessores a quem teceu críticas ao longo de sua história e campanha política também pedalou[16] para apresentar superávit de R$54,1 bilhões — a PEC dos Precatórios, dívida de aproximadamente R$147,7 bilhões e a PEC Kamikaze de R$41,2 bilhões ultrapassando o teto de gastos pela 5a vez — resultando no final do mandato um total de Restos a Pagar de R$250 bilhões a ser herdado para os governos seguintes, maquiando um déficit de aproximadamente 2,6% do PIB em 2022.


O 8 de Janeiro de 2023 não foi um caso isolado, mas o ápice da polarização e do maniqueísmo (esquerda vs. direita) na qual domina o país, culminando em uma fracassada tentativa de golpe por uma minoria golpista, a mesma a gritar "fora Dilma" e apoiar o golpe parlamentar 10 anos atrás, a ascensão de Bolsonaro e assistir sua condenação de 27 anos e 3 meses de prisão — pela tentativa de Golpe e abolição violenta do Estado de Direito — em setembro de 2025.


O que nos resta é saber se o desdobramento de nossas escolhas pós-eleições de 2026 resultará no retorno à uma desgovernança ou em uma sociedade livre e soberana.


Emilly de Souza Santos

Marllon Leonardo Pickhardt

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  1. BRASIL. SENADO FEDERAL. ‘Pedalada’ de Dilma impactou o benefício durante 21 meses. Senado Federal, Brasília, DF. Disponível em: https://www2.senado.leg.br/bdsf/bitstream/handle/id/513929/noticia.htmlsequence=1&isAllowed=y. Acesso em: 15 abr. 2026. Senado Federal.


  2. INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA (IBGE). PIB cresce 0,5% em 2014 e chega a R$ 5,8 trilhões. Rio de Janeiro, 2015. Disponível em: https://agenciadenoticias.ibge.gov.br/agencia-sala-de-imprensa/2013-agencia-denoticias/releases/9470-pib-cresce-0-5-em-2014-chega-a-r-5-8-trilhoes. Acesso em: 15 abr. 2026.


  3. ibidem. Superada apenas pelas quedas de 0,2% em 2003 e 1,2% em 2009


  4. Revista Contracampo, [S.d.]. Disponível em: http://www.compadd.ufpr.br/wp-content/uploads/2021/pub/Artigos/2018/Prudencio%2CRizzotto%2CSampaio%2C2018-Contracampo.pdf. Acesso em: 14 abr. 2026


  5. O jogo político-partidário pós-Jornadas de Junho de 2013. Vitória: UFES/CPC, 2021. Disponível em: https://cpc.ufes.br/o-jogo-politico-partidario-pos-jornadas-de-junho-de-2013-1. Acesso em: 25 abr. 2026.


  6. Paroxismo institucional é uma expressão que descreve o ponto mais alto, crítico ou de colapso de uma instituição ou do funcionamento da administração pública.


  1. Jornal da USP. A desumanização da política. 6 jun. 2025. Jornal da USP, São Paulo, SP. Disponível em: https://jornal.usp.br/articulistas/gaudencio-torquato/a-desumanizacao-da-politica/. Acesso em: 13 abr. 2026.


  1. BURKE, Peter. Ignorância: uma história global. Trad.: Rodrigo Seabra. São Paulo/Belo Horizonte: Editora Vestígio, 2023.


  1. ibidem. Dentre as várias formas de ignorância, abordo as consequências da ignorância na política, um aspecto relacionado e distinto dos tipos de ignorância individual.


  1. BBC NEWS BRASIL. “PMDB rompe com o governo e busca papel de protagonista na política nacional”. 29 mar. 2019. BBC News Brasil, Brasília. Disponível em: https://www.bbc.com/portuguese/noticias/2016/03/160329_pmdb_historico_ms_if. Acesso em 25 abr. 2026.


  1. Veja transcrição de trechos do áudio da reunião de Temer com dono da JBS. 18 mai. 2017. Agência Brasil. Brasília, DF. Disponivel em: https://agenciabrasil.ebc.com.br/politica/noticia/2017-05/veja-transcricao-de-trechos-do-audio-de-reuniao-de-temer-com-dono-da-jbs. Acesso em: 16 abr. 2026


  1. AZEVEDO, A. L., et al. Jair Bolsonaro afirma que não vai a debates no segundo turno. 18 out. 2018. G1 GLOBO, Rio de Janeiro, RJ. Disponível em: https://g1.globo.com/rj/rio-de-janeiro/eleicoes/2018/noticia/2018/10/18/jair-bolsonaro-afirma-que-nao-vai-a-debates-no-segundo-turno.ghtml. Acesso em: 17 abr. 2026.


  1. CAMAROTTI, Gerson. Em meio à pandemia de coronavírus, Bolsonaro diz que 'gripezinha' não vai derrubá-lo. G1 GLOBO, Rio de Janeiro, RJ. Disponível em: https://g1.globo.com/politica/blog/gerson-camarotti/post/2020/03/20/em-meio-a-pandemia-de-coronavirus-bolsonaro-diz-que-gripezinha-nao-vai-derruba-lo.ghtml. Acesso em 15 abr. 2026


  1. Brasil ultrapassa 700 mil mortos pela covid-19; governo Bolsonaro deixou vencer e incinerou milhões de vacinas. 29 mar. 2023. Sintrajufe, RS. Disponivel em: https://sintrajufe.org.br/brasil-ultrapassa-700-mil-mortos-pela-covid-19-governo-bolsonaro-deixou-vencer-e-incinerou-milhoes-de-vacinas/. Acesso em: 22 abr. 2026


  1. BEZERRA, R. “Superávit” de Bolsonaro é fruto de calote em precatórios, redução de investimentos e despesas não pagas, apontam economistas. 15 fev. 2025. Jornal Opção. Goiânia, GO. Disponível em: https://www.jornalopcao.com.br/reportagens/superavit-de-bolsonaro-e-fruto-de-calote-em-precatorios-reducao-de-investimentos-e-despesas-nao-pagas-apontam-economistas-680376/. Acesso em: 17 abr. 2026.


  1. BRASIL, SENADO FEDERAL. As pedaladas de Bolsonaro. 21. out. 2021. Senado Federal. Brasília, DF. Disponível em: https://www2.senado.leg.br/bdsf/bitstream/handle/id/613253/noticia.html?sequence=1&isAllowed=y. Acesso em: 17 abr. 2026.




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