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O Latifúndio Dependente: A Fisionomia da Insegurança Alimentar

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    PET Economia UFES
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Atualizado: há 4 dias

GRUPO EDITORES BLOG. Charge: Segurança Alimentar. Blog do AFTM, 5 maio de 2024. Disponível em: Blog do AFTM – Charge Segurança Alimentar. Acesso em: 14 jun. 2026.
GRUPO EDITORES BLOG. Charge: Segurança Alimentar. Blog do AFTM, 5 maio de 2024. Disponível em: Blog do AFTM – Charge Segurança Alimentar. Acesso em: 14 jun. 2026.

O agronegócio somou, em maio de 2026, US$ 16 bilhões em exportações, um crescimento de 8,2% em comparação ao mesmo período do ano passado. Essa pujança garantiu ao setor participação de 50,2% nas exportações totais do Brasil nesse período.[1] O protagonismo do setor na economia nacional também se expressa para além das fronteiras do país, com aquisições de diversas empresas latino-americanas feitas por parte de grupos empresariais ligados ao agronegócio brasileiro: notadamente, a compra de 4 empresas uruguaias por parte da Marfrig, uma gigante do setor alimentício, que a fez tornar-se a maior exportadora de carnes do Uruguai.[2] É nesse sentido que o agro é ideologicamente difundido como pop, tech e tudo: proporciona uma balança comercial favorável ao mesmo tempo em que se transnacionaliza. Porém, para além das vias da aparência, o agro também é sinônimo de dependência, insegurança alimentar, devastação ambiental e agrotóxicos.


Assim como na épica história do Cavalo de Tróia, a questão acerca do imperialismo alimentar no Brasil se apresenta de forma majestosa quando observada pela via da aparência, sendo celebrada como sinal de vitória por uma elite que transmite à população civil mil razões para ser contemplada. Entretanto, dentro desse presente, está a deterioração da qualidade, segurança e até mesmo de sua própria cultura alimentar, em detrimento da satisfação de um capital dependente que sequer pertence ao seu próprio povo, visto que esse mesmo capital, segundo Marini, associa-se às burguesias do centro do capitalismo, fornecendo bens alimentícios de forma barateada. Nesse sentido, o centro é capaz de mudar seu eixo de acumulação, da mais-valia absoluta para a mais-valia relativa, na medida em que a periferia exerce o papel da transferência de valor.[3] Desse modo, as burguesias periféricas, visando compensar a perda da mais-valia, passam então a superexplorar a força de trabalho, remunerando a classe trabalhadora abaixo de seu valor e intensificando seu desgaste físico e psíquico.[4]


Há outro componente essencial para acumulação periférica: uma esfera de influência própria, garantida pela completa associação com os Estados Unidos, manifestada principalmente na política de subimperialismo dos primeiros anos da ditadura militar.[5] Ao passo que se torna o centro de irradiação imperialista na América Latina, o latifúndio desfruta de uma hegemonia regional, demonstrada não só pelas aquisições de empresas latino-americanas efetuadas pelo empresariado conectado ao agronegócio, mas também pelo fenômeno dos brasiguaios e latifundiários brasileiros que territorializam-se no Paraguai, principalmente em terras destinadas à reforma agrária no país.[6]


O constante modus operandi de expansão e extraterritorialização realizado pela alta cúpula do agronegócio não é irracional, visto que o movimento da imperialidade do poder consegue constantemente a legitimação de sua barbárie, desde que os discursos em prol do progresso, da democracia e de um suposto desenvolvimento socioeconômico continuem como alicerce de uma centralidade ocidental, que se autoproclama civilizada e em posição de tomar as rédeas da periferia.[7] Essa barbárie se apresenta de diversas formas dentro do nosso Cavalo de Tróia, como nas inúmeras vezes em que foi recebido de braços abertos através de uma jurisdição ineficiente, tutorada por um corpo político subordinado. Esse corpo político, mesmo desde 2016 superando ano após ano o próprio recorde em número de autorizações para uso de defensivos químicos, ao ponto de finalizar o ano de 2021 com 562 novos agrotóxicos liberados, persistentemente diminui as barreiras à entrada de agroquímicos no país.[8] É o caso do "Pacote do Veneno" (PL 1459/2022), um projeto de lei apresentado em 2022 durante o governo Bolsonaro, sancionado em 2023 com 17 vetos exigidos pelo presidente Lula, dos quais apenas 3 permaneceram. Os 14 restantes foram derrubados pelo vigente Congresso Nacional, dominado pela bancada ruralista.[9]


Em um artigo redigido pelo bacharel em Relações Internacionais, Lindson Coelho, o autor relata que, frente ao exorbitante aumento nos números de defensivos químicos autorizados nos últimos anos, em 2021, o Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor (Idec) realizou uma pesquisa a fim de verificar a presença de agrotóxicos em produtos ultraprocessados.[10] Dentre 27 produtos divididos em 8 categorias de alimentos e bebidas, 16 possuíam algum agrotóxico na composição, sendo o glifosato ou glufosinato presentes em 14. O glufosinato foi banido pela União Europeia em 2018 em razão de seus riscos à fertilidade e desenvolvimento do sistema nervoso, enquanto o glifosato teve seu maior estudo (que sofria de viés) retirado do ar no final de 2025 após mais de 25 anos de alertas sobre seus riscos emitidos por inúmeras entidades diferentes, além da evidente presença de conflito de interesses.[11] Curiosamente, a principal detentora desses produtos é a Bayer, multinacional alemã que, junto da suíça Syngenta, lideram como as duas maiores fornecedoras de defensivos químicos para o mercado brasileiro, fomentando em território estrangeiro o consumo de um item reconhecido por sua jurisdição interna como fator de risco biológico.[12] Reforçando as palavras de Eduardo Galeano em As Veias Abertas da América Latina: "Na alquimia colonial e neocolonial o ouro se transfigura em sucata, os alimentos em veneno."[13]


Para além dos danos causados à integridade física da periferia, os danos causados pela lógica da imperialidade alimentar manifestam sintomas também na cultura desses povos. Conforme afirma o Doutor em Estudos Culturais Latino-Americanos, Albán Achinte: "Com seus modos alimentares, o colonizador procurou reproduzir, nas condições possíveis, refeições que se aproximasse de sua dieta, assim como tentou impor suas particularidades sobre aquelas práticas e modos alimentares já existentes no Novo Mundo".[14] Dessa premissa, compreende-se um processo de descarte de grande parte do cardápio, técnicas, métodos de produção e cultivo oriundo dos povos originários desde o início do processo de dominação colonial, que também se adapta e perpetua ao decorrer das necessidades da classe dominante. Um ótimo exemplo pode ser observado tanto na quinoa como no açaí, ambos produtos nativos e pertencentes à dieta de povos sul-americanos que, em decorrência de uma alta demanda e apreciação estrangeira após serem introduzidos no mercado exterior, se veem obrigados a romper laços com sua própria tradição devido à escassez do produto no mercado local e ao aumento dos preços, rompendo-se assim qualquer vínculo cultural com a produção do alimento, que agora sendo realizada em larga escala, o transforma em mera mercadoria mistificada. Ao mesmo tempo, a periferia cumpre com seu papel de via para o escoamento de superprodução do centro capitalista de forma sistemática até a contemporaneidade. Casos antigos, como o da implementação do leite condensado na dieta do brasileiro entre 1960 e 1970, arquitetada pelo grupo Nestlé, alteraram de forma irreparável a cultura alimentar do país: ao ponto de quase nenhuma espécie de doce na mesa do brasileiro não conter esse ingrediente.[15]


Entre a dependência, agrotóxicos, insegurança e marginalização alimentar da periferia, faz-se necessária a superação das contradições do latifúndio. Foi nessa direção que, durante a primeira metade da década de 60, o então presidente João Goulart decidiu percorrer: através das reformas de base, que teve como norte principal a reforma agrária, pretendia-se, entre outras reformas, desapropriar latifúndios próximos de rodovias federais, transformando-os em minifúndios produtivos. A proposta, em conjunção com diversas tensões políticas, sociais e econômicas, teve como consequência um golpe militar patrocinado pelas elites nacionais e estrangeiras, que levaria o país a um regime repressor de 21 anos, responsável pela manutenção da grande propriedade agrária até a contemporaneidade. Para além das fronteiras brasileiras, a reforma agrária promovida pelo então ditador Alfredo Stroessner no Paraguai foi o motor para a concentração de terras e expulsão de populações locais, que deram lugar à monocultura da soja. Esses dois acontecimentos históricos revelam-nos que uma reforma agrária latino-americana é insuficiente para a superação da dependência: é preciso a superação do capitalismo como modo de produção e reprodução social.

Daniel Verneck Telarolli

Saulo Saick


  1. BRASIL. Ministério da Agricultura e Pecuária. Agro brasileiro exporta US$ 16 bilhões em maio e responde por mais da metade das vendas externas do país. 2026. Disponível em: https://shre.ink/jE3w. Acesso em: 14 jun. 2026.


  2. FIRMIANO, Frederico Daia. O Novo Colonialismo Transnacional e a Experiência Brasileira do Agronegócio. Revista NERA, Presidente Prudente, ano 13, n. 16, p. 48–62, jan./jun. 2010. Disponível em: https://shre.ink/jE3F. Acesso em: 14 jun. 2026.


  3. WORLD LABOUR VALUES DATABASE. World Labour Values Dashboard. Disponível em: https://panel.worldlabourvalues.org. Acesso em: 1 jul. 2026.


  4. MOREIRA, Renata Couto; MENDONÇA, Luiz Jorge Vasconcellos Pessoa de (orgs.). Dependência, questão agrária e mudanças sociais na América Latina. 1. ed. São Paulo: Expressão Popular, 2022.


  5. MARINI, Ruy Mauro. Subdesenvolvimento e Revolução. 4. ed. Florianópolis: Insular, 2013. Disponível em: https://shre.ink/jE3b. Acesso em: 14 jun. 2026.


  6. SILVA, João Carlos da; SOUZA, Maria Aparecida de. Territorialização do agronegócio brasileiro no Paraguai. In: ENCONTRO NACIONAL DE GEÓGRAFOS, 7., 2016. Anais [...] Disponível em: https://shre.ink/jEhV. Acesso em: 14 jun. 2026.


  7. BALLESTRIN, Luciana Maria de Aragão. Modernidade/Colonialidade sem Imperialidade? O Elo Perdido do Giro Decolonial. DADOS – Revista de Ciências Sociais, v. 60, p. 505–540, 2017.


  8. IDEC – Instituto de Defesa do Consumidor. Tem veneno nesse pacote? São Paulo, v. 2, 2022. Disponível em: https://shre.ink/jE70. Acesso em: 19 jun. 2026.


  9. TUSSINI, Gabriel. Pacote do Veneno afrouxou controle sobre agrotóxicos no Brasil. ((o))eco, 15 jun. 2026. Disponível em: https://shre.ink/jE7K. Acesso em: 19 jun. 2026.


  10. COELHO, Lindson Vinicius Diniz. Por que comemos o que comemos? Uma análise da alimentação sob a égide do capital financeirizado. Uberlândia: Universidade Federal de Uberlândia, 2022. Disponível em: https://shre.ink/jEC1. Acesso em: 3 jul. 2026.


  11. JUNQUEIRA, Diego. Estudo que atestava segurança de glifosato é despublicado após 25 anos. Repórter Brasil, 5 dez. 2025. Disponível em: https://shre.ink/jE7W. Acesso em: 19 jun. 2026.


  12. MARTINS, Maria Luísa Monteiro; SILVA, Everton Rodrigues da; PEREIRA, Fernando Batista. O imperialismo e sua influência no setor de alimentos no Brasil. In: SILVA NETO, Benedito Rodrigues da (org.). Ciências Humanas e Sociais: tópicos atuais em pesquisa. Ponta Grossa: Editora Científica Digital, 2024. v. 5, p. 177–192. DOI: 10.37885/240717162.


  13. GALEANO, Eduardo. As veias abertas da América Latina. Tradução de Sergio Faraco. Porto Alegre: L&PM, 2012, p. 15.


  14. ALBÁN ACHINTE, A. Comida y colonialidad, tensiones entre el proyecto hegemónico moderno y las memorias del paladar. Calle 14 revista de investigación en el campo del arte, [S. l.], v. 4, n. 5, p. 10–23, 2011. DOI: 10.14483/21450706.1200. Disponível em: https://shre.ink/jE7c. Acesso em: 19 jun. 2026.


  15. PERES, João; COELHO, Luisa. Como a Nestlé se apropriou das receitas brasileiras (ou de como viramos o país do leite condensado). O Joio e O Trigo, São Paulo, 8 abr. 2021. Disponível em: https://shre.ink/jE7m. Acesso em: 19 jun. 2026.


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