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Patriarcado, Tecnologia e Acumulação: A Objetificação Feminina no Capitalismo Digital

  • Foto do escritor: PET Economia UFES
    PET Economia UFES
  • 17 de jul.
  • 6 min de leitura
PAPRIKA. Direção: Satoshi Kon. Japão: Madhouse, 2006. Filme.
PAPRIKA. Direção: Satoshi Kon. Japão: Madhouse, 2006. Filme.

O Japão reforçou a proibição do silenciamento das câmeras digitais em smartphones a partir de uma alteração, em 2015, na Portaria Japonesa sobre o Desenvolvimento Saudável de Jovens.[1] Essa barreira sonora, contudo, remonta ao ano 2000, quando a prisão da celebridade Masashi Tashiro por tirar fotos não consensuais de uma mulher em uma estação de trem pressionou os desenvolvedores do primeiro celular com câmera do país (o J-SH04) a padronizarem o barulho da fotografia como medida preventiva.


A medida evidencia que os impactos da tecnologia não podem ser compreendidos apenas a partir de suas funções técnicas. No entanto, a inovação tecnológica ainda é frequentemente apresentada como um instrumento neutro e que espontaneamente gera progresso social. Essa compreensão tende a ofuscar o fato de que as tecnologias operam em contextos sociais específicos, atravessados por relações de poder. No cenário japonês, isso se traduz em um persistente conflito: enquanto o som obrigatório busca proteger a privacidade, o próprio mercado de tecnologia reage com a proliferação de aplicativos espiões desenhados especificamente para camuflar a tela e burlar o ruído da fotografia. Assim, o som da câmera revela-se menos como uma solução definitiva e mais como um paliativo técnico sobre um problema comportamental e de violência de gênero profundamente enraizado.


Judy Wajcman, em TechnoFeminism, questiona justamente a suposta neutralidade e autonomia do desenvolvimento tecnológico ao argumentar que tecnologia e sociedade não constituem esferas separadas. Para a autora, a ideia de que as inovações seguem uma trajetória linear e independente ignora o fato de que toda tecnologia é concebida em contextos históricos específicos e a partir de interesses, necessidades e valores socialmente determinados.[2] Afinal, as decisões sobre quais problemas merecem solução, quais pesquisas recebem financiamento e quais grupos terão acesso a determinados recursos são também políticas e econômicas.


Nesse sentido, os recursos tecnológicos devem ser compreendidos como produtos de relações sociais concretas. Essa dinâmica se alinha profundamente à célebre formulação de Simone de Beauvoir de que “não se nasce mulher, torna-se mulher” — isto é, a compreensão de que o gênero não é um dado biológico ou natural, mas uma construção social e histórica contínua. Sob essa lente, o processo de “tornar-se” e de construir a identidade de gênero na contemporaneidade é materialmente mediado e moldado pelas próprias tecnologias. Ao mesmo tempo, portanto, essas ferramentas influenciam a maneira como indivíduos interagem, trabalham, consomem e moldam suas vivências, participando ativamente da reprodução ou da transformação das relações sociais de poder nas quais foram produzidas.


A regulamentação de dispositivos no Japão, ilustrada pela obrigatoriedade do som do obturador das câmeras, surge como uma tentativa estatal de conter a reprodução de estruturas patriarcais e de violência de gênero. Embora os smartphones facilitem a captação dessas imagens, o ecossistema digital não funciona como um espaço passivo de mera publicação. As próprias plataformas operam sob uma lógica algorítmica que seleciona, amplifica e distribui conteúdos com base no engajamento e na retenção da atenção. Sob essa dinâmica, a espetacularização e a objetificação dos corpos femininos convertem-se em ativos econômicos de alta circulação e monetização.


Assim, alinhando-se à perspectiva de Wajcman de que as tecnologias são produtos de relações sociais historicamente situadas, a análise não pode se limitar à eficácia de barreiras técnicas ou ao design das plataformas. Torna-se imperativo investigar as próprias relações sociais e econômicas que tornam a demanda, a mercantilização e a própria burla tecnológica dessas violências não apenas possíveis, mas profundamente lucrativas.


Nesse sentido, a contribuição de Friedrich Engels é particularmente relevante, uma vez que permite compreender a desigualdade entre homens e mulheres não como resultado de diferenças naturais, mas como um fenômeno que surge a partir da mudança na estrutura econômica vigente no decorrer dos séculos, em que a ordem material passa a nortear as formas sociais e, sobretudo, põe as mulheres em posição de subjugamento.


Inspirado pelos escritos de Karl Marx e pelos estudos antropológicos de Lewis H. Morgan, Friedrich Engels aponta de forma esclarecedora que a subordinação feminina possui raízes históricas e econômicas, argumentando que nas eras classificadas como selvagem e barbárie, em que ainda não havia propriedade privada, a maioria dos povos reconhecia a “filiação materna”, pois como a poligamia e a poliandria eram comuns, somente por meio da mãe era possível distinguir os filhos de cada genitor. Por conseguinte, as heranças eram deduzidas por esse tipo de filiação, chamado de direito materno.


Entretanto, com os desenvolvimentos no ramo produtivo, a força de trabalho do homem passou a ser capaz de produzir mais do que era necessário para sua manutenção e a da sua família, possibilitando a geração de excedente, o que aumentou as riquezas individuais concentradas nas mãos daquele que a produzia: o homem. Enquanto isso, a mulher era encarregada do cuidado do lar e da criação dos filhos. Dessa forma, aprofundou-se, sobre as bases capitalistas, a divisão sexual do trabalho.


A consequência dessa privatização do excedente em poder somente do homem foi uma modificação na essência dessa divisão do trabalho entre homens e mulheres, já que o trabalho masculino passou a ser julgado mais importante que o da mulher. Tornou-se necessário garantir a transmissão hereditária da riqueza produzida pelo homem para seu filho legítimo, surgindo então a filiação paterna. É a partir desse acontecimento que Engels declara “a grande derrota histórica do sexo feminino em todo o mundo”,[3] visto que marca a passagem do direito materno ao paterno e insere a mulher em uma posição progressivamente subordinada aos interesses patrimoniais do novo estilo de família: a família patriarcal.


As relações de gênero, portanto, surgem como parte de uma determinada forma de organização social voltada para a preservação da propriedade e da herança. Essa organização social intitulada “família”, na sua forma mais primitiva, pode ser descrita exatamente como na origem etimológica da palavra: famulus, que significa escravo, servente, submetido,[4] pois era constituída pelo homem-pai (chefe) que possuía poder de vida e de morte sobre a mulher, os filhos (herdeiros) e filhas, e uma certa quantidade de escravos.


Desse modo, deduzindo que o patriarcado possui raízes econômicas, sua permanência ao longo da história pode ser analisada em relação às transformações dos sistemas produtivos e das formas de acumulação. Sob essa perspectiva, as plataformas digitais não criam a objetificação feminina, mas operam sobre estruturas historicamente constituídas, atribuindo-lhes novas formas de circulação, visibilidade e valorização econômica.


Um exemplo do impacto tecnológico é a utilização da inteligência artificial (IA) para gerar conteúdos difamatórios e de cunho sexual de mulheres, e até mesmo de meninas, o que alarmantemente vem se tornando comum no Brasil e no mundo, como foi no caso de uma escola particular em Cuiabá, em que imagens de quatro adolescentes e de uma professora foram criadas com a ajuda dessa tecnologia para serem divulgadas em grupos de pornografia nas redes sociais no ano de 2024.[5]


Em outro acontecimento recente, um médico ginecologista utilizou óculos com recursos de IA para gravar pacientes durante as consultas.[6] O caso evidencia que a inteligência artificial não cria a violência de gênero, mas amplia sua capacidade de reprodução. Entretanto, limitar a discussão aos usos individuais da tecnologia mistifica outro aspecto relevante: as plataformas nas quais esses conteúdos circulam dependem da permanência dos usuários, da coleta de dados e da geração contínua de engajamento. Nesse contexto, conteúdos que provocam choque, curiosidade ou excitação tendem a alcançar maior circulação, independentemente de seus efeitos sociais. A objetificação feminina ganha, então, uma nova dimensão de exploração: o meio virtual.


A leitura de Engels permite compreender que a opressão e a objetificação feminina não são fenômenos que surgem com as plataformas digitais. Pelo contrário, elas se inserem em uma estrutura muito mais antiga, vinculada à consolidação do modo de produção que visa ao excedente. Já Wajcman demonstra que as tecnologias não existem à margem dessas relações, mas são produzidas e operam a partir delas.


Nesse sentido, talvez seja insuficiente compreender a objetificação feminina nas redes apenas como a reprodução de valores patriarcais já existentes. Afinal, em plataformas que transformam atenção em lucro, determinadas representações dos corpos femininos parecem adquirir uma função que ultrapassa sua dimensão cultural. A questão, então, deixa de ser apenas como o patriarcado se manifesta no ambiente digital e passa a ser por que essas formas de representação continuam encontrando espaço, visibilidade e valor em um sistema econômico que se apresenta como inovador.

Lavínia Lacort Oliveira

Luany de Sena Medina de Faria


  1. TOKYOWEEKENDER. Why You Can’t Disable the Shutter Sound on Japanese Phones: The Root of the Problem Is Nonconsensual Photography. Tokyo, 2024. Disponível em: https://www.tokyoweekender.com/japan-life/news-and-opinion/why-you-cant-disable-the-shutter-sound-on-japanese-phones/. Acesso em: 19 jun. 2026.


  2. WAJCMAN, Judy. TechnoFeminism. Cambridge: Polity Press, 2004.


  3. ENGELS, Friedrich. A Origem da Família, da Propriedade Privada e do Estado. Rio de Janeiro: Editorial Vitória Ltda., 1964.


  4. BASSOIS, Miquel. Famulus. Revista Fapol Online Lacan XXI, 2016. Disponível em: https://www.lacan21.com/sitio/famulus/?lang=pt-br. Acesso em: 19 jun. 2026.


  5. G1 MT. Alunos são expulsos após usar inteligência artificial para criar nudes falsos de professora e colegas em escola particular de Cuiabá. 2024. Disponível em: https://g1.globo.com/mt/mato-grosso/noticia/2024/09/25/alunos-sao-expulsos-apos-usar-inteligencia-artificial-para-criar-nudes-falsos-de-professora-e-colegas-em-escola-particular-de-cuiaba.ghtml. Acesso em: 19 jun. 2026.


  6. G1 Salvador. Médico é preso suspeito de usar óculos com câmera para filmar paciente em Salvador. 2026. Disponível em: https://g1.globo.com/ba/bahia/noticia/2026/07/10/homem-e-preso-em-salvador.ghtml. Acesso em: 15 jul. 2026.



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