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A inadimplência no Brasil: um fenômeno à parte?

  • Foto do escritor: PET Economia UFES
    PET Economia UFES
  • há 17 horas
  • 6 min de leitura

Cazo. Endividamento e inadimplência tiram o sono de brasileiros. Blog do AFTM Disponível em: https://blogdoaftm.com.br/charge-endividamento-e-inandimplencia/. Acesso em: 22 mar. 2026.

A notícia de que o endividamento das famílias atingiu sua máxima na série histórica repercutiu entre os principais veículos de comunicação nas últimas semanas. O agravo desse endividamento é a inadimplência, definida como o descumprimento de uma obrigação financeira ao longo do tempo, e que atinge cerca de 30% das famílias brasileiras[1]. O debate acerca dos motivos desse número expressivo tem sido marcado pela contestação de alguns agregados macroeconômicos nacionais. Nos últimos meses, o país vive um momento de mercado de trabalho aquecido, com juros relativamente elevados, inflação dentro da meta e rendimentos médios mensais se elevando, o que torna difícil entender de forma clara o que pode estar causando tal endividamento. Se a economia fosse uma receita de bolo “mankiwliana”[2], talvez a inadimplência pudesse ser compreendida de forma mais clara pelos “teólogos” do mercado.


A ortodoxia econômica aponta como causa fundante do endividamento crescente das famílias o aumento da taxa de juros, partindo do pressuposto de que a elevação da taxa básica de juros da economia tem como efeito “a elevação do preço do dinheiro”. Ainda assim, essa perspectiva deve ser analisada com cuidado, quando observamos a média histórica da taxa SELIC neste século (15,12% a.a.) que alcança patamar muito próximo dos 14,75% a.a. mantidos pela atual gestão do Banco Central do Brasil, de modo que o diferencial dos juros impacta, mas não diverge de forma gritante dos padrões da economia brasileira. Outro argumento para o crescente endividamento das famílias é a elevação da inflação em períodos passados, o que não acontece no cenário atual, em que o índice (4,31% no acumulado de 12 meses) apresenta trajetória de queda e está abaixo tanto da média histórica apresentada neste século (5,87% a.a.[3]) quanto do teto da meta de inflação (4,5%). 


Pode-se observar, a partir dos elementos apresentados, que a interpretação dos índices de inflação e da taxa de juros como causas isoladas não podem justificar, de forma totalizante, a origem da inadimplência no Brasil. Para uma análise que possa entender a essência do endividamento familiar, é necessário mediar o que o atual período histórico traz de novo e contrapô-los com os elementos estruturais da economia brasileira. O fenômeno do recorde de inadimplência no Brasil não pode ser compreendido dissociado de sua historicidade, de sua localidade e, sobretudo, de seu sujeito. Sujeito esse que deve ser entendido como o próprio desenvolvimento do capitalismo no Brasil, denotado de um caráter específico, em que a condição periférica é marca de nossa existência. 


Tal condição é dada pela agudização das contradições de uma economia capitalista, cujos momentos de desenvolvimento e crescimento são, ao mesmo tempo, momentos de pauperização contínua de uma fração da classe trabalhadora, notadamente, em sua contemporaneidade. No período entre 1964 e 1967, o salário mínimo caiu cerca de 35%[4], em termos do poder de compra, enquanto no período entre 1967 e 1973, o regime militar atuou de forma direta para aumentar a concentração bancária. Nesse período histórico, que ficou denotado de “milagre econômico”, a política econômica do regime militar gestou as bases para os desafios enfrentados até os dias atuais e como consequência, o país teve forte acentuação  da concentração dos mercados e da renda.


Analisar a questão do crédito no Brasil exige uma  análise conjunta sobre a questão da renda, tanto individual quanto nacional. Segundo Paulo Nakatani[5], o crédito tem papel fundamental na reprodução ampliada, pois amplifica as condições de realização da produção ao permitir a criação de novos espaços de acumulação. O crédito é, em si, o comprometimento de uma renda futura em prol de um determinado grau de consumo presente. Renda futura, essa, que estará cada vez mais sujeita às flutuações do produto quanto mais pauperizadas forem as condições de reprodução da classe trabalhadora. O crédito bancário permite a criação desses espaços de acumulação como contrapartida da dívida, convertendo o consumo das famílias em um fluxo contínuo de transferência de renda para o capital portador de juros.


Na medida em que o desenvolvimento dos nossos espaços de acumulação são incompletos, o que se tem é um capitalismo dependente. Dessa forma, a inadimplência das famílias brasileiras está inserida em um ciclo de consumo intermediado não somente por uma genealogia econômica e financeira nacional, mas também tem as marcas de uma lógica de produção global. Como forma de reproduzir o capital internamente, mecanismos de compensação são necessários, como o aumento do grau de exploração da força de trabalho, o rebaixamento do valor da força de trabalho e o crédito para consumo. Podemos entender que o crédito para consumo tem necessariamente um caráter distinto nas economias periféricas, uma vez que se torna necessário para que as famílias consigam ter condições de reproduzir materialmente sua vida.


Hyman Minsky, em sua teoria da instabilidade financeira[6] analisa esse fenômeno por outro prisma ao constatar que as instituições financeiras não são meros intermediários passivos desse processo, tendo os juros apenas como uma consequência do processo de intermediação financeira, mas são agentes caracterizados como “mercadores de dívida”. Para o autor, o banqueiro, para além de alguém que se situa entre tomadores e poupadores, é um empreendedor, que busca a ampliação de seu capital — entende-se “seu” por capital tomado de terceiros — por meio da inovação financeira. Dessa forma, esse agente precisa criar constantemente novos ativos e passivos para expandir a disponibilidade de financiamentos. 


No contexto brasileiro, essa captação aparece de forma mais acentuada na atuação das fintechs e dos bancos digitais, que ampliaram e facilitaram as possibilidades de acesso ao crédito nos últimos anos. Em 2024, um quarto do mercado de cartões de crédito e mais de 10% dos empréstimos pessoais era dominado por essas instituições[7], que se consolidaram como grandes motores da inclusão financeira do país, com a utilização do rápido desenvolvimento tecnológico para facilitar o acesso aos produtos do mercado bancário tradicional para o consumidor médio brasileiro. Esse modelo de negócio, que tem como canal central de captação para atrair liquidez as plataformas de investimento, fez com que as instituições financeiras digitais superassem, e muito, os bancos físicos do mercado brasileiro em termos de captação líquida anual[8].


Acontece que essa facilidade de acesso ao crédito, concentrada especialmente em modalidades de financiamento com alto risco e sem garantias, é potencializada pela própria precariedade da reprodução da classe trabalhadora no Brasil. Em muitos casos, a renda mensal passa a ser destinada, em grande parte, para o pagamento de juros. Isso cria um ciclo onde há a necessidade de renovar a dívida periodicamente. Em muitos casos, os juros assumem um caráter quase permanente, funcionando, em termos práticos, como um “aluguel” sobre a renda do trabalho.  Em casos mais críticos, a família pode chegar a um estado de insolvência tão grande que é obrigada a aumentar seu endividamento, com a aquisição de novos empréstimos para conseguir arcar com compromissos passados. Assim, está montada a arapuca do sistema financeiro nacional, que encontra condições de realização na pauperização das condições de vida da população.


Em suma, a crescente facilitação do acesso ao crédito no Brasil é um fenômeno de caráter endógeno que não elimina as contradições do sistema, mas as reorganiza ao converter o consumo e a reprodução social das famílias em espaços de valorização do capital portador de juros. O sequestro da renda futura para honrar dívidas passadas atinge diretamente a dignidade do cidadão. O que se vende como inclusão é um mecanismo de ampliação da dependência e subordinação a compromissos financeiros permanentes. 


Portanto, como essa problemática deriva da própria estrutura produtiva e financeira nacional, soluções conjunturais ou individuais, como o programa Desenrola Brasil ou a educação financeira isolada, se mostram insuficientes para a resolução do problema da inadimplência no Brasil, pois oferecem respostas transitórias ou individuais para um problema estrutural e coletivo e, dessa forma, a superação dos níveis alarmantes de inadimplência no país exige a busca por alternativas que possam causar mudanças estruturais na economia brasileira, permitindo à classe trabalhadora a dignidade de sua reprodução social. Se o objetivo é combater o endividamento familiar, é necessário um projeto político popular e comprometido com a realidade social, em que as regulações do sistema bancário e financeiro estejam alinhadas com pautas como a melhoria dos postos e condições de trabalho e da reprodução social digna dos trabalhadores.


Kayky Barcelos de Oliveira

Lucas de Mattos Conceição

  1.  MOREIRA, Camila; AYRES, Marcela. Inadimplência no Brasil atinge em janeiro nível mais alto desde 2017. CNN Brasil, São Paulo, 25 fev. 2026. Disponível em: https://www.cnnbrasil.com.br/economia/macroeconomia/inadimplencia-no-brasil-atinge-em-janeiro-nivel-mais-alto-desde-2017/. Acesso em: 15 mar. 2026.


  2.  O termo faz referência aos manuais de economia convencionais, baseados em uma simplificação da teoria neoclássica e que ganham grande respaldo político-ideológico nas justificativas dos fenômenos reais da economia.


  3. BANCO CENTRAL DO BRASIL. Sistema Gerenciador de Séries Temporais (SGS). Brasília, 2026. Disponível em: https://www3.bcb.gov.br/sgspub/localizarseries/localizarSeries.do?method=prepararTelaLocalizarSeries. Acesso em: 15 mar. 2026.


  4.  ROVAROTO, Isabela. Milagre econômico e desigualdade social: o contraste da ditadura. Exame, São Paulo, 31 mar. 2019. Disponível em: https://exame.com/economia/milagre-economico-e-desigualdade-social-o-contraste-da-ditadura/ . Acesso em: 20 mar. 2026.


  5.  NAKATANI, Paulo; MARQUES, Rosa Maria. O capitalismo em crise. 1. ed. São Paulo: Expressão Popular, 2020.


  6.  MINSKY, Hyman P. The Financial Instability Hypothesis. New York: Levy Economics Institute of Bard College, 1992. (Working Paper, n. 74).


  7.  HANNAN, Swarnali A.; LEIGH, Daniel; XU, Rui. Como explicar o forte crescimento do crédito no Brasil apesar dos juros altos. [S. l.]: FMI, 9 out. 2025.


  8.  BANCO CENTRAL DO BRASIL. Relatório de Estabilidade Financeira. Brasília: BCB, v. 24, n. 2, nov. 2025.










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