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A Bolha da IA e a Lógica do Capital Fictício

  • Foto do escritor: PET Economia UFES
    PET Economia UFES
  • há 3 dias
  • 7 min de leitura

KROESE, Noah. No market bubble here… just shiny soap ones. Instagram, @noah.j.kroese, 14 nov. 2025. Disponível em: https://www.instagram.com/p/DRC0Hl5Du1-/. Acesso em: 02 abr. 2026.

As tulipas, plantas originárias da região da atual Ásia Central, foram introduzidas nos Países Baixos no final do século XVI e, por sua beleza e raridade, transformaram-se em um item extremamente requisitado, virando um símbolo de status. Elas se tornaram ainda mais almejadas quando, no começo do século XVII, um vírus infectou seus bulbos, o que fez com que as pétalas das flores desenvolvessem padrões de cores ainda mais belos. A alta demanda por elas fez com que a flor se valorizasse fortemente, atingindo um preço tão alto que, em 1636, ela começou a ser negociada em mercados por meio de contratos futuros, ou seja, plantas que nem sequer haviam sido plantadas já estavam vendidas, gerando uma alta especulação.[1] Entretanto, em 1637, a demanda pela flor caiu rapidamente, fazendo com que os preços delas despencassem, e aqueles que haviam comprado os títulos futuros das flores perderam muito dinheiro, no que ficou conhecido como a Crise das Tulipas, considerada a primeira bolha financeira[2] da história[3].


Desde então, muitas outras bolhas financeiras marcaram a história do capitalismo, como a Bolha dos Mares do Sul, no começo do século XVIII, que envolveu a Companhia dos Mares do Sul; a Crise de 1929, associada principalmente à Bolsa de Valores de Nova Iorque; e a Crise do Subprime em 2008, relacionada ao mercado imobiliário dos Estados Unidos. Agora podemos estar à beira de mais uma, envolvendo, desta vez, a inteligência artificial (IA). E não são apenas os analistas que defendem essa possibilidade, mas também grandes nomes do setor, como Sam Altman,[4] CEO da OpenAI, empresa criadora do ChatGPT e maior responsável pela popularização da IA.


Esse temor por uma nova bolha especulativa é justificado. Isso ocorre porque, para muitos, as ações das empresas ligadas ao setor de inteligência artificial estão supervalorizadas. Até outubro de 2025, essas empresas foram responsáveis por cerca de 80% dos ganhos do S&P 500[5] — índice que reúne as 500 maiores empresas listadas nas bolsas de valores dos Estados Unidos —, ganhos esses que foram impulsionados por investimentos bilionários direcionados ao setor. Contudo, muitas dessas empresas ainda não geram retornos que justifiquem esse nível de investimento. Além disso, grande parte dos contratos firmados ocorre entre empresas do próprio setor, gerando uma espécie de financiamento circular em que o dinheiro investido por uma empresa tende a retornar para ela a partir de transações internas, como se fosse um sistema fechado. Um exemplo desse sistema pode ser observado no caso da Nvidia.


Em fevereiro de 2026, a Nvidia anunciou a intenção de investir até US$ 30 bilhões na OpenAI.[6] Para entender o que isso significa, precisamos compreender o que se planeja fazer com esse dinheiro. A ideia é o investimento partir da Nvidia, que repassa capital à OpenAI, que, precisando de infraestrutura para rodar seus modelos, contrata a CoreWeave — empresa de Data Centers[7] da qual a Nvidia detém 9% das ações[8] — para alugar processamento em nuvem. A CoreWeave, por sua vez, precisa de diversos chips para estruturar esses servidores e, para isso, adquire-os majoritariamente da própria Nvidia. Ou seja, o dinheiro que parte como investimento volta como receita, e essa receita valoriza as ações da Nvidia no mercado financeiro. Com ações mais valorizadas, ela tem capacidade de investir novamente na OpenAI, e assim o ciclo recomeça. É um processo em que o capital da fabricante alimenta um ecossistema que implica a compra de seus próprios produtos como ação final. O capital sai das mãos da Nvidia e encontra caminhos de retorno para si mesma ao final do ciclo.


Esse mecanismo é, antes de tudo, o resultado previsível de uma dinâmica que o economista Hyman Minsky identificou como estrutural ao capitalismo: períodos de estabilidade e crescimento alimentam progressivamente comportamentos especulativos, até que o sistema se torna frágil demais para sustentar o que ele mesmo construiu. Como o próprio autor sintetiza, “a estabilidade é, em si, desestabilizadora”[9] — quanto mais o mercado de IA parece próspero e promissor, mais capital é atraído para ele, mais as apostas se tornam arriscadas e mais o colapso se aproxima. O ciclo “fechado” da Nvidia representa o sistema em sua fase mais eufórica, o que, para o economista Reinaldo Carcanholo, tem uma explicação estrutural: o capitalismo contemporâneo, pautado em um processo de financeirização da economia, tornou-se “especulativo e parasitário, presidido pela insuficiente capacidade do capital produtivo de gerar o necessário excedente econômico real”[10]. Ou seja, as empresas de tecnologia não conseguem gerar, pela via da produção real, lucros suficientes para cobrir os bilhões nelas investidos, então o sistema migra para a especulação, inflando valores no papel para compensar o que a realidade produtiva não entrega com base em uma promessa. O resultado é um descolamento entre a riqueza socialmente produzida e a riqueza fictícia, o que o mercado contabiliza como riqueza e o que de fato existe: fumaça tratada como certeza.


Mas o que sustenta esse ciclo especulativo? Para além de uma narrativa, uma oportunidade. A possibilidade da IA atingir um ponto de revolucionar a economia com sua capacidade e retornar o que foi investido anteriormente — o que as empresas chamam de AGI (Inteligência Artificial Geral)[11] — não é só uma previsão técnica ou uma função ideológica, mas a esperança de que isso dará o retorno a todos que acreditaram. A AGI atua como a promessa máxima do Vale do Silício: a crença de que quem alcançar esse marco primeiro deterá um monopólio sobre o trabalho cognitivo global. É essa expectativa de hegemonia futura que justifica, aos olhos do mercado financeiro, a injeção desenfreada de bilhões de dólares em companhias que acumulam déficits bilionários enquanto têm como promessa revolucionar o mundo.[12] Como aponta o geógrafo David Harvey, o capitalismo alimenta um verdadeiro “fetiche da tecnologia”,[13] no qual novas ondas de inovação tornam-se frenéticas e altamente especulativas, funcionando como um ímã para atrair montanhas de capital em busca de lucros rápidos.


O mercado financeiro não precifica o que a IA produz hoje, mas sim o que se acredita, coletivamente, que ela produzirá amanhã. Essa crença não surge do nada, ela é manufaturada por comunicados de imprensa, valuations[14] divulgadas estrategicamente pela atuação de CEOs como Sam Altman, vendendo a imagem de um futuro mágico e inevitável. Esse cenário ilustra a própria essência do que Harvey define como capital fictício: um sistema que repousa puramente sobre a fé e as expectativas de antecipar os frutos do trabalho futuro. Assim, os resultados do mercado convencem que sequer é necessário haver lucro presente para justificar valores astronômicos, a aparência toma a essência por completo e meros títulos de promessas futuras são tratados como riqueza real, inflando uma bolha de ilusões que se sustenta até o momento em que a realidade apresenta a conta.


A questão central não é apenas se a bolha vai estourar, mas quem arcará com as consequências quando isso acontecer. Carcanholo oferece uma resposta precisa por meio da analogia do jogo do mico, em que o capital fictício circula entre os agentes do mercado como as cartas de um baralho, qualquer um pode repassar o mico para outro jogador, mas alguém sempre ficará com ele no final. “No momento da crise, quem fica com o mico? Normalmente o perdedor é o pequeno investidor (...). Se por acaso o mico ficar nas mãos de um poderoso, um grande banco, o Estado procurará salvá-lo: too big, too fail[15] [sic]”[16]. Esse salvamento seletivo representa a Lei Geral da Acumulação Capitalista em sua mais pura essência, endossando o que o filósofo Karl Marx sinalizou: “Portanto, a acumulação de riqueza num polo é, ao mesmo tempo, a acumulação de miséria (...) e a degradação moral no polo oposto, isto é, do lado da classe que produz seu próprio produto como capital”. A concorrência concentra o capital nas mãos dos mais poderosos, eliminando os menores e aprofundando a centralização de capital.[17] Enquanto os grandes empresários, que lucraram no processo de especulação da bolha, são resgatados, seu estouro lança trabalhadores ao desemprego, reforçando o que Marx identificou como o Exército Industrial de Reserva: uma massa de desempregados que disciplina salários e enfraquece a resistência da classe trabalhadora.[18] O capital fictício infla os balanços das corporações, mas quando a realidade vem à tona, serão os de baixo que pagarão, como sempre foi.


Felipe Guerra Barbosa

Gabriel Barreto Fardin

  1. SCHIPPER, Chris. Why Did Tulips Lead To An Economic Bubble In 17th Century Holland? Amsterdam Tulip Museum, Amsterdam, 14 dec. 2017. Disponível em: https://amsterdamtulipmuseum.com/blogs/tulip-facts/how-did-tulips-gain-their-speculative-prominence-during-tulip-mania?_pos=12&_sid=916713e85&_ss=r. Acesso em: 29 mar. 2026.


  2.  Também chamada de bolha especulativa.


  3.  Redação. Crise das tulipas: conheça a história da primeira crise especulativa econômica do mundo. CBN, 07 abr. 2025. Curiosidades. Disponível em: https://cbn.globo.com/curiosidades/noticia/2025/04/07/crise-das-tulipas-conheca-a-historia-da-primeira-crise-especulativa-economica-da-historia.ghtml. Acesso em: 29 mar. 2026.


  4.  BUTTS, Dylan. OpenAI’s Sam Altman sees AI bubble forming as industry spending surges. CNBC, 18 ago. 2025. Disponível em: https://www.cnbc.com/2025/08/18/openai-sam-altman-warns-ai-market-is-in-a-bubble.html. Acesso em: 29 mar. 2026.


  5. JAMALI, Lily.  Por que cada vez mais analistas falam em 'bolha' da inteligência artificial prestes a estourar. BBC, São Francisco, 14 out. 2025.  Disponível em: https://www.bbc.com/portuguese/articles/cwypj4qxv90o. Acesso em: 31 mar. 2026.


  6.  Nvidia revê acordo bilionário e redefine investimento na OpenAI. Economic News Brasil, 20 fev. 2026. Disponível em: https://economicnewsbrasil.com.br/2026/02/20/nvidia-reve-acordo-bilionario-e-redefine-investimento-na-openai/. Acesso em: 02 abr. 2026.


  7.  Um Data Center é uma instalação física composta por uma rede de recursos de computação e armazenamento.


  8.  INVESTING.COM. Ações da CoreWeave sobem após Nvidia adquirir participação de 9%. Investing.com, 26 jan. 2026. Disponível em: https://br.investing.com/news/analyst-ratings/acoes-da-coreweave-sobem-apos-nvidia-adquirir-participacao-de-9-93CH-1810971. Acesso em: 30 mar. 2026.


  9.  MINSKY, Hyman P. Estabilizando uma economia instável. Osasco: Novo Século Editora, 2010, p. 251.


  10. CARCANHOLO, Reinaldo A. Capital: Essência e Aparência, Vol. 2. São Paulo: Expressão Popular, 2013, p. 139.


  11. AGI (Artificial General Intelligence) refere-se à capacidade hipotética de uma IA realizar, com autonomia equivalente à humana, qualquer tarefa cognitiva — não restrita a domínios específicos, como ocorre com os sistemas de IA existentes hoje.


  12.  STARTSE. A OpenAI virou uma máquina de faturar. E também de queimar caixa. StartSe, 20 jan. 2026. Disponível em: https://www.startse.com/artigos/a-openai-virou-uma-maquina-de-faturar-e-tambem-de-queimar-caixa/. Acesso em: 31 mar. 2026.

  13.  HARVEY, David. O Enigma do Capital e as Crises do Capitalismo. São Paulo: Boitempo, 2011, p. 109


  14.  Valuation (valoração ou avaliação de empresas) é um termo do mercado financeiro que designa o processo analítico de estimar o valor de uma companhia.


  15. Too big to fail significa “grande demais para falhar”. O termo refere-se a instituições tão essenciais para o sistema que o governo é "obrigado" a salvá-las para evitar um colapso econômico total.


  16.  CARCANHOLO, Reinaldo A. Op. cit., p. 152.


  17.  MARX, Karl. O capital: crítica da economia política. Livro I. São Paulo: Boitempo, 2013, p. 875 a 877.


  18.  MARX, Karl. Op. cit., p. 858.

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